2012/07/06

Cineplaneta apresenta “Menos que Nada”, de Carlos Gerbase




“MENOS QUE NADA” –  A TRAGÉDIA DA DOENÇA MENTAL  

 Esquizofrenia. Psicose. Perturbação mental. Vidas que se dividem entre antes do surto e depois do surto. Internamento. Drogas. Desesperança. Paixão. Solidão. Tudo isso faz parte do universo do filme “Menos que nada”. A realização é da Prana Filmes, com direção de Carlos Gerbase e produção de Luciana Tomasi. No elenco, nomes bem conhecidos do cinema brasileiro, como Felipe Kannenberg (“Olga”), Rosanne Mulholland (“Falsa loura”), Branca Messina (“Não por acaso”) e Maria Manoella (“Mulher invisível”).
 Premiado no concurso para mídias digitais da Petrobrás em 2010, a trama do longa-metragem gira ao redor de “Dante” (Felipe Kannenberg), que está internado num hospital psiquiátrico com diagnóstico de esquizofrenia. Ele não fala com ninguém, nem recebe visitas. A Dra. Paula (Branca Messina), uma jovem psiquiatra, se interessa por Dante ao vê-lo surtar no pátio do hospital. Disposta a desvendar as relações sociais do seu paciente, a médica faz uma série de entrevistas com pessoas que conviviam com Dante antes do internamento e que contam sobre seu passado.
 As filmagens aconteceram em dezembro de 2010 e janeiro de 2011, em Porto Alegre, no sul do Rio Grande do Sul (praia do Cassino e proximidades do banhado do Taim) e litoral norte (Arroio do Sal e Araçá). Na capital gaúcha, os principais cenários foram o Hospital Psiquiátrico São Pedro (que no filme chama-se São Tomás de Aquino) e a PUCRS.
 O lançamento multi-plataformas (salas de cinema, internet, TV e DVD) acontece no dia 20 de julho de 2012. Nas salas de cinema, o filme estará nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Curitiba e Salvador. O cronograma de pré-estreias é o seguinte:

29 de junho - Goiás Velho/Goiás (na programação do Festival Internacional do Cinema Ambiental) – 21h;
4 de julho - Porto Alegre - Espaço Itaú - Bourbon Shopping - 21h30;
5 de julho - Porto Alegre - Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS - 19h30;
9 de julho - Brasília - Espaço Itaú - Shopping Casa Park - 21h30;
10 de julho - Rio de Janeiro - Espaço Itaú - Botafogo - 21h30;
12 de julho - São Paulo - Espaço Itaú - Frei Caneca - 21h30.

No blog www.menosquenada.com.br há extenso material sobre a filmagem e a finalização.
No site www.pranafilmes.com.br há notícias sobre o lançamento e promoções.

SOBRE A ADAPTAÇÃO
(texto de Carlos Gerbase)
 “Menos que nada” é a adaptação do conto “O Diário de Redegonda”, do médico e escritor austríaco Arhur Schnitzler (1862-1931). Trata-se de um texto curto (oito páginas), mas de grande densidade dramática, em que Schnitzler conta a história de um escriturário que se apaixona perdidamente pela esposa de um militar e, sem qualquer possibilidade real de aproximar-se dela, constrói um universo imaginário para viver seu amor. Embora a trama original se passe na Viena do final do século 19, o conflito psicológico retratado é universal e atemporal, permitindo uma adaptação que dialoga com os espectadores cinematográficos contemporâneos. O estilo literário peculiar de Schnitzler, que mescla realismo e sonho, ação e devaneio, foi mantido em sua essência desde os primeiros tratamentos.

 O filme pode ser definido como um drama psicológico, embora também tenha alguns traços de suspense e erotismo. Schnitzler era um arguto observador do comportamento humano - em suas glórias e em suas misérias - e a adaptação procurou manter esse caráter analítico da sociedade, que pode ser inferido a partir dos dramas individuais. Para isso, foi fundamental colocar a trama num contexto brasileiro e mais próximo ao espectador atual. Em vez de Viena, Porto Alegre. Em vez de final do século 19, início do 21.
 O personagem principal, no original um escriturário, foi transformado num arqueólogo de pouca ambição, quase um burocrata, que trabalha com a liberação de obras, redigindo e assinando alvarás. Ele vive com o pai (um policial aposentado), num pequeno apartamento e praticamente não tem vida social. Já a mulher por quem se apaixona, que no conto é a esposa de um militar, no filme é uma arqueóloga carioca de destaque no meio universitário, que vem para um congresso em Porto Alegre. Dante apaixona-se por esta mulher, para ele inatingível, e a partir daí sua vida muda inteiramente.
 No desenvolvimento da última versão do roteiro, teve papel decisivo a leitura – indicada pelo psiquiatra Celso Gutfreind – de um ensaio de Freud, "Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen", em que um conto é analisado em profundidade com ferramentas psicanalíticas. Há um detalhe surpreendente nesse ensaio: o personagem principal da ficção de Jensen é um arqueólogo, a mesma profissão de Dante, o anti-herói de "Menos que nada". Coincidência? Talvez não. A investigação psicanalítica pode ser encarada como uma escavação que parte da superfície visível do ser humano e vai penetrando em camadas cada vez mais profundas da sua psique. Esta metáfora já estava colocada – de forma intuitiva – nas versões anteriores do roteiro, incorporando ao roteiro novas camadas de significados.

SOBRE A ABORDAGEM E AS RELAÇÕES DOS PERSONAGENS
(texto de Carlos Gerbase)
 Desde a primeira leitura do conto de Schnitzler, ficou claro que fazer ficção tendo como base um personagem psicótico, que delira e confunde a realidade com o seu imaginário,  exigiria dois cuidados essenciais: pesquisar sobre o tema, para conhecê-lo e dar verossimilhança à abordagem; e depois manter o roteiro longe de soluções excessivamente esquemáticas e psicanalíticas. Sabemos que Freud admirava os contos e romances de Schnitzler e dizia que o escritor estava fazendo na literatura o que ele, Freud, fazia na ciência: desvendar o inconsciente humano. A estratégia no último tratamento de "Menos que nada" foi de usar o conhecimento científico para aprofundar a trama ficcional, sem torná-la didática.
 Além do texto "Sonhos e delírios na Gradiva de Jansen", de Freud, também foram consultados os livros "Teoria e clínica da psicose", de Antonio Quinet, "Psicose e mudança", de Diatkine, Frings, Andreoli, e "Psiquiatria e anti-psiquiatria", de David Cooper. Estes textos deixaram claro que a doença mental tem uma relação íntima com o imaginário e com a linguagem. O psicótico, em seu delírio, está criando um mundo em que possa viver, já que a realidade é insuportável. Assim, o seu delírio é, ao mesmo tempo, sintoma de uma doença (para quem observa) e tentativa de cura (para o próprio doente). A psiquiatra Paula, que conduz a narrativa do filme através da sua investigação, sabe que o delírio de seu paciente Dante não é uma coleção aleatória de ações. Mas dar significado a essas ações não é tarefa fácil, tanto que o seu preceptor no hospital psiquiátrico, o Dr. Sérgio, já desistiu de Dante, considerando-o irrecuperável.
 Ao escolher Dante como objeto de estudo, Paula se impõe um desafio e, à medida que avança, percebe que o próprio Dante quer ajudá-la. As entrevistas em vídeo (mostradas para Dante) e a diminuição da medicação fazem com que ele volte a se comunicar. Mas isso também faz de Dante um paciente mais agitado e, quem sabe, até mais perigoso. Paula terá de insistir e se arriscar para obter resultados. Mas essa é a única forma de resgatar parte a vida psíquica de Dante. A abordagem que "Menos que nada" faz à doença mental é, portanto, não-dogmática. Não se trata de uma denúncia do sistema manicomial, nem de uma exposição de teses freudianas. É o relato de uma situação bastante comum na sociedade brasileira – o quase abandono de doentes mentais – e a história de uma médica lutando para dar uma vida mais humana para seu paciente, o que implica desvendar seu passado.   

SOBRE A ESTRUTURA NARRATIVA, A LINGUAGEM E A DIREÇÃO
(texto de Carlos Gerbase)
 A principal solução narrativa é bastante óbvia: acompanhar um estudo de caso de uma psicose desde que o seu começo até sua apresentação para uma banca de avaliação. Isso permitiu amarrar o que pode ser amarrado e, ao mesmo tempo, valorizar os muitos pontos obscuros que restam sem solução. A complexidade temporal foi inevitável: dois tempos principais, mais dois tempos pregressos, que dão sentido aos mais atuais. Estas camadas apóiam-se mutuamente. O encontro dos três passados, que só  acontece no final da trama, fornece uma nova significação do presente para o espectador.         
 O roteiro de "Menos que nada" aponta para uma representação realista. Esse realismo se aproxima do gênero documental, graças ao uso das entrevistas feitas pela médica com as pessoas que conheciam Dante antes de sua internação. Um momento delicado da representação é a cena que acontece 11 mil anos antes do presente, mostrando o ataque de um tigre de dentes de sabre a um casal de seres humanos. A computação gráfica foi concebida e realizada pela empresa gaúcha Cápsula, que tem larga experiência no setor. 
*****
 O tema da imaginação está bem presente em meus últimos filmes. Em "Tolerância" (2000). um editor de fotografias usava tecnologias digitais para alterar as imagens, adequando-as ao gosto de público (em seu trabalho profissional) e às suas próprias fantasias (ao navegar na internet com o nick "Ivanhoé" e criar imagens falsas de uma garota por quem se apaixonou). A sua imaginação acaba trazendo problemas bem concretos ao seu casamento. Em "Sal de Prata" (2005), uma economista bem sucedida tentava descobrir, em roteiros de filmes encontrados no computador do namorado recentemente falecido, conexões entre a ficção e a realidade de suas vidas. Incapaz de desvelar esta relação, ela própria começa a imaginar um passado, baseado em seus maiores temores. Em "3 Efes", a imaginação, chamada agora de "fasma", é explicitamente citada como um dos aspectos fundamentais da existência humana, ao lado da fome e do sexo. Uma jovem estudante é obrigada a prostituir-se para sustentar o pai e o irmão, descobrindo que, antes de "ser" uma garota de programa ela precisa imaginar-se como tal. Ou seja, precisa descobrir uma linguagem que componha esse novo personagem.
 Minha motivação principal em "Menos que nada" é dar mais um passo nesse conjunto de reflexões sobre a imaginação humana. Pretendo que esse passo ultrapasse os limites da imaginação dita normal e penetre no campo das imaginações ditas patológicas. Dante, o  personagem principal de "Menos que nada", perdeu a noção da realidade, e, em vez de usar a linguagem para construir um mundo mental capaz de dar significados à existência, é "usado" pela linguagem, transformando-se num ente de significados incompreensíveis. A psiquiatria e a psicanálise criaram um grande conjunto de denominações para as patologias mentais – sendo a esquizofrenia e a psicose as que mais se aproximam do estado de Dante – mas pretendo mostrar que essas classificações são inúteis se não houver, na base do tratamento, o reconhecimento do doente como um ser humano completo, em suas dimensões físicas e psíquicas.
 Creio que foi apenas no último tratamento do roteiro, em que foram introduzidos novos personagens e uma nova dimensão temporal, que este fato ficou mais claramente exposto.  Paula, a psiquiatra que assume o tratamento de Dante, funciona como um detetive. Ela está interessada em encontrar as origens do desequilíbrio mental do seu paciente, em vez de simplesmente classificá-lo como "crônico" ou "incurável". A noção de que a esquizofrenia, em suas formas mais severas, não tem perspectiva de cura, não significa que o doente perdeu sua condição humana e está condenado a uma existência sem qualquer comunicação com o outro e com a sociedade. Freud já anunciava que a psicanálise, em muitos casos, tenta transformar um sofrimento insuportável em infelicidade comum. É assim que se comporta a psiquiatra Paula em relação a Dante. Outra noção importante é de que o processo de degeneração mental nunca está totalmente desligado das relações familiares e sociais. As entrevistas feitas pela médica permitem que ela desvende, pelo menos parcialmente, as razões da primeira grande crise de Dante, e, a partir daí, talvez torne possível imaginar uma existência mais humana para um homem que já tinha se transformado em "coisa".
 Realizar "Menos que nada" foi, para mim, um aprofundamento e uma radicalização de idéias que já vinham sendo desenvolvidas em meus filmes: a imaginação como elemento  constituinte (e formador) da existência humana; as dificuldades que todos temos de relacionar o mundo imaginado com alguns de nossos instintos mais básicos e que nos aproximam muito dos animais, em especial as pulsões sexuais; os paradoxos daí resultantes, que estabelecem uma tensão permanente, e às vezes insuportável, entre a racionalidade e a animalidade; o cinema como a mais poderosa máquina de criar imaginários, pois é capaz de representar mundos com grande verossimilhança, e mesmo assim plenamente estéticos e arbitrários. 

SOBRE O TEMA
 Ao abordar a doença mental – especialmente em suas manifestações mais severas, como a esquizofrenia e a psicose – "Menos que nada" trará para a pauta de discussões um tema importante para a saúde pública no Brasil. A falência do sistema manicomial brasileiro, construído no século 19, é bem evidente, mas a sua substituição por uma rede descentralizada de atendimentos é mais um desejo que um fato. Há uma grande carência por leitos para os doentes mentais, o que torna impossível simplesmente desativar os grandes hospitais psiquiátricos. O personagem principal de "Menos que nada" está internado numa destas instituições, e a sua realidade é compartilhada por milhares de brasileiros. O abandono destes doentes por suas famílias é também uma triste realidade. Sem serviços especializados para receber – em regime de hospital-dia ou ambulatorial – seres que não conseguem viver normalmente em seu meio social, a permanência, por anos a fio, solitários, num hospital psiquiátrico, ainda é um destino possível em pleno século 21. 
 Em setembro de 2008, segundo o jornal Estado de São Paulo, o Brasil tinha 1.202 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) - o principal recurso terapêutico no tratamento de doenças mentais graves - o que representa uma cobertura de 0,51 unidade por 100 mil habitantes, pouco mais de 50% do necessário.  Já a relação de leitos destinados a pacientes psiquiátricos em hospitais-gerais no país é de apenas 0,25 por mil habitantes, quando deveria ser de, no mínimo, 0,45, segundo definições da Política Nacional de Saúde Mental. A consequência desses números é perversa: ou simplesmente ficam sem tratamento, ou os doentes não escapam do antigo sistema manicomial.
 "Menos que nada" conta a história de um destes doentes. Há dez anos internado num hospital psiquiátrico em Porto Alegre, ele é considerado um "caso perdido" até que uma jovem psiquiatra decide tratar dele e estudá-lo. Ao dramatizar esse processo, o filme mostra como uma pessoa aparentemente alienada da realidade pode ser conduzida a um outro patamar, mais digno e mais humano, mesmo que isso não signifique propriamente uma "cura". Misto de investigação médico-científica e processo de reconstituição da história pregressa do paciente, o trabalho da psiquiatra é uma lenta aproximação do que resta de humano num ser que já se "coisificara" no cotidiano do hospital. A trama de "Menos que nada" parte de fatos já bem conhecidos da psicose - em sua maioria desvendados por Freud ainda no começo do século 20 - mas que ainda são misteriosos para o cidadão comum. Sem didatismos, e sem trazer dogmas para o mais subjetivo dos temas – "Menos que nada" pretende lançar alguma luz para um problema que a sociedade tem deixado nas sombras.


EQUIPE PRINCIPAL
Direção – Carlos Gerbase
Produção – Luciana Tomasi
Roteiro – Carlos Gerbase, com a colaboração de Marcelo Backes e Celso Gutfreind
Montagem – Giba Assis Brasil
Fotografia – Marcelo Nunes
Direção de Arte – Rita Faustini
Som direto – Rafael Rodrigues
Supervisão de som – Kiko Ferraz

ELENCO PRINCIPAL
Felipe Kannenberg – “Dante”
Branca Messina – “Paula”
Rosanne Mulholland – “René”
Maria Manoella – “Berenice”
Carla Cassapo – “Laura”
Roberto Oliveira – “Gregório”
Artur Pinto – “Sérgio”
Alexandre Vargas – “Ciro”
Felipe Monaco – “Zanata”
Elisa Volpatto – “Úrsula”
Matheus Zoltowski – “Dante criança”
Letícia Lahude – “Berenice criança”


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